De Amsterdam, Com Amor

Foto Autorretrato De Um Sonhador Self Portrait of Dreamer
Foto Autorretrato De Um Sonhador Self Portrait of Dreamer

MORAR FORA, NESTE MOMENTO, É MESMO UMA BOA?

Olá pessoal, tudo bom? Provavelmente, vocês ainda não me conhecem. Sou o Luis Fabiano Teixeira e moro na Holanda faz 7 anos, sou amigo da Maria Dias e, quando surgiu o convite para escrever esta coluna, minha ideia foi trazer novidades de Amsterdam, onde moro, como se eu estivesse escrevendo um grande cartão-postal, em forma de post. Basicamente era isso. Mas como escapar de um assunto quente como este: fugir ou não do Brasil, neste momento de crise/descrença na política?, sendo que posso dividir com vocês a minha experiência?

OK, fugir é um termo um pouco forte, mas tenho recebido, há algum tempo, várias mensagens no Facebook, de pessoas querendo dicas para vir pra cá. Muitas alegam que viver no Brasil, neste momento, está insuportável e que a única saída é mudar de país. Será? Bom, nesses 7 anos no exterior, já passei por muitas alegrias e perrengues, então, de certa forma, me sinto autorizado a dar algumas dicas preciosas. Lembrando, claro, que cabe a cada um fazer a sua escolha. Certo?

Na semana passada, li uma matéria sobre atores globais que já deixaram ou vão deixar o país, até o final do ano. Fiquei um pouco chocado com a abordagem, porque tudo dava a entender que esse processo é muito simples. Basta pegar um mapa, escolher um país de “primeiro mundo”, fazer as malas e abandonar o navio em chamas! Muita calma nessa hora! Mudar de país exige, no mínimo, um bom planejamento e que inclua estar preparado psicologicamente, financeiramente e ter muita força de vontade! Caso contrário, a frustração é tão grande quanto a empolgação inicial.

Se eu tivesse me programado melhor, teria evitado muitos problemas. Em 2011, a Europa ainda se sacudia de uma forte crise financeira e as pessoas torciam o nariz diante do meu sonho de artista incansável: expor em Amsterdam!, um paraíso da arte, no mundo! Se não fosse por causa desse sonho, eu jamais estaria aqui. Consegui realizá-lo, mas não sem antes passar muito frio, tropeçar na língua, odiar a comida e me sentir um peixe congelado, num inverno sem fim. Sim porque fora d’água eu já estava, desde que cheguei a Frankfurt, antes de desembarcar no aeroporto de Amsterdam.

Vou ocultar alguns detalhes, porque essas histórias são sempre muito parecidas e, embora tenha vivido muitas situações engraçadas também, não sei se vocês querem ler essas coisas, mas super topo voltar ao tema, algum dia (é só deixar nos comentários). OK, vamos às dicas: primeira coisa, conhecer muito bem o lugar de destino (país/cidade). Não basta dar um google, é preciso conversar com pessoas que moram no país. Nem sempre brasileiros! Clima, culinária, transporte, saúde, política, tudo! Se você odeia frio, por exemplo, fuja de países como Holanda, porque são oito meses, praticamente, de inverno, por ano! Sua saúde resiste? Você vai se sentir feliz, mesmo no terceiro dia de neve, abaixo de temperaturas que chegam a -10 graus ou mais? Como e onde você vai trabalhar? Sem a documentação necessária e sem falar o idioma, sobram trabalhos informais como faxina, construção civil e baby sitter. Você tem vocação pra isso? Ganhar em euros é um sonho pra qualquer um, mas você sabe quanto custa viver numa cidade como Paris ou Amsterdam? Onde você vai ficar? É quarto? Uma vaga? Hotel cinco estrelas? Tudo isso tem que ser colocado na ponta do lápis. A conta fechou? Ótimo, faça as malas e boa sorte!

Só não esqueça também que ficar longe da família e dos amigos é muito doloroso. Não existe nada mais melancólico do que passar datas especiais, sem o afago da família e dos amigos. No segundo Natal que passei em Amsterdam, por exemplo, num invernão daqueles!, na noite do dia 24 de dezembro, eu tinha acabado de falar rapidamente com meus pais num locutório (na época não tinha essa facilidade do WhatsApp) e saí caminhando pelas ruas da cidade, chorando, sozinho, morrendo de frio e de saudade de casa, me lembrando de todos os Natais maravilhosos que passamos juntos. Essa angústia durou apenas algumas horas, porque logo tive que engolir o choro e voltar pro meu quarto minúsculo que ficava num sótão bastante úmido, sem calefação, onde às vezes funcionava também como meu ateliê, num prédio ao redor do Mercatorplein, uma área um pouco afastada do centro da cidade. Coloquei, então, um episódio do Mundo da Lua, no YouTube, comecei a assistir e logo adormeci. Nada de ceia, confraternização, nada de foto no Instagram. A vida seguiu. E daí você deve estar se perguntando “Mas por que não voltar?”, não é mesmo?

Pois bem, vocês observaram a imagem que abre o post? Não a escolhi, por acaso. Trata-se de uma big escultura de um jovem artista sul africano e que fez o maior sucesso, durante o verão, por aqui. Ela já foi retirada da praça dos museus, na semana passada. Toda vez que passava por ali e, eu faço esse caminho quase todos os dias, parava um pouquinho e me encantava com aquela obra-prima que, à primeira vista, reverencia Van Gogh com seus girassóis e a cadeira de palha, que aparece no Quarto em Arles, mas há também um extraordinário astronauta equilibrista ali no meio, o que logo me lembrou O Bêbado e o Equilibrista, na voz de Elis.

  1. Fiz mil conexões, até o dia em que resolvi estacionar minha bicicleta e ir até lá, para descobrir mais detalhes. Não só descobri o nome do talentoso artista, Joseph Klibansky, já aclamado como o novo Damien Hirst (será?), como levei um susto com o nome da obra: Autorretrato de Um Sonhador! Inconscientemente, eu me vi refletido naquela escultura! E uma possível resposta por continuar aqui, por enquanto, se materializou ali, na hora, na minha frente. Quando se trata de um sonhador (“Nós temos uma espécie de dever/ de dever de sonhar/ de sonhar sempre”, lembram?), vive-se, assim mesmo: equilibrando razão (“Tenho pernas tortas e alinho-me em cordas bambas”) com emoção, ficamos de cabeça pra baixo ou com a cabeça nas nuvens, às vezes os pés no chão, dormindo muito ou pouco, trabalhando exaustivamente o nosso sonho, no Brasil, na Europa ou em qualquer lugar.  O show é que não pode parar.

Até a próxima!

De Amsterdam, Com Amor

L.F.T.

www.luisfabianoteixeira.com

@luisfabianoteixeira

YouTube/produtoramardeideias

 

 

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7 comentários

    1. Obrigado Fê! Aqui já é quase outono, está bem friozinho, uma quase-delícia de tempo rs. Beijos, volte sempre sua linda! 😘💖🌹

    1. Obrigadão Kamila! Volta e meia estarei aqui contando as minhas histórias. Super beijo e volte sempre. 😘

  1. Uau! Impecável a tua descrição, já morei em outro país, hoje vivo com um pedaço meu que pertence lá. Há muita ilusão quando queremos pertencer a um lugar! Objetivo ser feliz sempre.

    1. Super obrigado Naty! Viver fora de casa requer muita determinação, não é mesmo? Sobre as ilusões: vivo correndo delas! Beijos e volte sempre! 😘 🍀💚

Sou muito grata por seu comentário, é importante pra mim.

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