Artistas devem se posicionar, politicamente?

Heart Boy - Banksy Moco Amsterdam
Heart Boy – Banksy Moco Amsterdam

Olá pessoal, tudo bom? Começo com esta provocação, porque hoje não estou pra brincadeira rs. Como anda o nível de paciência de vocês, nesses dias pré-eleições, hein? Estou subindo nos tamancos, pra ser bem sincero! Juro que a minha intenção era fugir para as montanhas e reportar, de lá, apenas amenidades, até porque o tema do Mary Wellness sugere isso, mas está impossível! Não pense que as Eleições 2018 não chegaram por aqui. Pelo contrário, os próprios jornais holandeses resolveram acompanhar tudo e até já compararam um dos candidatos ao Donald Trump. Tá bem tenso! A comunidade brasileira anda em polvorosa.

Para todo lugar que se olhe, somos bombardeados pelas notícias das eleições e, muitas vezes, me vejo exatamente no Consolo da Praia, do Drummond: “A injustiça não se resolve../dorme, meu filho”. Mas como dormir num momento crucial desses? Ser cúmplice de uma catástrofe? Mais uma? Se calar para não perder seguidores? Não mexer no vespeiro, por comodismo? Que país é este que queremos deixar para as futuras gerações? Vale tudo em nome da nossa jovem democracia? São muitos os questionamentos, eu sei.

Por outro lado, os comentaristas da área política aconselham a pesquisar muito bem, antes de votar. Fazer o tal dever de casa. Pra mim, honestamente, esse dever tá virando uma espécie de Medicina da Fuvest. Juro. É tanta informação, desinformação, Fake News, daí tem que checar os fatos desmentidos, se o candidato é ficha limpa, assistir aos debates, entrar e sair de grupo de Whatsapp, assistir mil entrevistas, ver o plano de governo no site, pensar se revida ou não às provocações no Facebook, se Anitta tá certa ou errada, votar na direita ou esquerda, fora os xingamentos, as amizades desfeitas, o horário eleitoral… Zzzzzz.

Tudo isso pra chegar a um assunto que está, no olho do furacão, nesta semana: os artistas devem se posicionar, politicamente? O que vocês acham? Eu, como artista, não vejo o menor problema, mesmo porque quem não deve não teme. Aliás, sou do time dos anarquistas, graças a Deus, com muitíssimo orgulho. E com as redes sociais, em plena ebulição, ninguém consegue mais escapar. E o povo que tem, sim, os seus lampejos de inteligência, não se enganem!, se percebe algo falso ou estranho, logo se organiza e toca o terror. Foi o que aconteceu com a nossa querida Anitta, que se viu praticamente obrigada a se posicionar.

E eu achei a reivindicação bastante correta, pra falar a verdade. Se o público dela é, basicamente, feminino e LGBTQI+, sem o posicionamento dela, a mensagem que fica é: consuma minha música, meu estilo, os produtos que vendo e não me encham o saco! Afinal, qual a graça em empoderar mulheres e gays com letras e atitudes e, quando eles precisam de apoio, não ficar do lado deles? Lá fora, várias divas pop se posicionam em prol de muitas causas (até mais espinhosas) e isso só as fortalecem. Vou citar apenas Lady Gaga, mas existem muitas outras. Isso se chama coerência, respeito pelo público e, principalmente, responsabilidade social! O lado bom é que as pessoas estão acordando. Amém!

Bom, com essas ideias fervilhando na minha cabeça, fui parar, ontem, no jardim do Moco, escapando de mais uma chuva (a terceira, desde que começou o outono por aqui). O Moco é um museu pequeno que aposta, quase sempre, em exposições bem populares. Quem está lá agora é o Banksy, um artista de rua inglês, famoso por suas obras com sacadas inteligentes e polêmicas. Vocês, com certeza, já viram aquela famosa imagem da menina tentando alcançar um balão em forma de coração. É dele. Eis que, de repente, do lado de fora do jardim, vejo um pedaço de muro bem grande (foto acima), todo emoldurado. Fiquei um tempinho, ali, até ter certeza absoluta de que se tratava, mesmo, de um muro pintado por ele. E é.

A obra que tanto me chamou atenção chama-se Heart Boy (2009) e foi pintada num bairro de Londres, com fama de ser bastante machista, por isso ele grafitou o tal garoto pintando um coração na cor rosa. Já está num tom meio desbotado, pra ser sincero, mas, originalmente, era um rosa cheguei, como se dizia antigamente. Vale a pena também dar um zoom no rosto do garoto, que parece confrontar as pessoas, vocês não acham? Observem direitinho. Eu achei genial. Uma forma inegável de posicionamento. E ao mesmo tempo tão simples. Agrediu terrivelmente alguém? Aposto que não. É a resposta que nós precisamos, neste exato momento. Desconfie, sempre, de artista que não se indigna. Por uma razão muito simples. Arte nenhuma tem o poder de mudar o mundo, mas tem a obrigação de mudar a nós mesmos. Então, não é só hashtag. É também a hashtag. E, principalmente, a atitude. Mas parece que a Anitta, agora, já sabe disso.

Até a próxima!

De Amsterdam, Com Amor

L.F.T.

www.luisfabianoteixeira.com

@luisfabianoteixeira

YouTube/produtoramardeideias

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2 comentários

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